Ars longa vita brevis

28/1/2008 - O que o Barroco me ensinou sobre música

 

Há músicas e músicas. Há algumas melodias em que a escolha estética mais simples para ligar os pontos A e B é a saída mais elegante, por conta de sua simplicidade mesma. É fácil perceber a mediocridade de um músico, compositor ou intérprete, quando ele entope de floreios velocíssimos e rocambolescos uma progressão melódica que pede brevidade.

 

No entanto, existem situações em que temos apenas o ponto de partida. Não há ponto de chegada à vista. Em situações como essa, a exploração de notas e melodias faz-se necessária, e abre-se espaço para a construção de ricas ornamentações musicais. Após a conquista do ponto B, a música bem-feita é tão rica e bela que ele parece ser uma obviedade, quando na verdade é uma construção, uma conquista; o músico partiu rumo ao inesperado completo, lançando-se ao desconhecido.

 

Há ainda um ponto intermediário, que é quando um caminho já relativamente explorado é percorrido novamente pelo músico. Aqui, embora saibamos de antemão qual é o ponto de chegada que se busca atingir, pode ser interessante a invenção de novas formas de se encaminhar até lá, mesmo tendo por base uma estrada conhecida.

 

O gênio musical se revela neste dois últimos pontos. Não teme usar o contraponto nem a polifonia, mas sabe também dar espaço à singeleza das soluções musicais simples. Os bons (e maus) músicos barrocos me ensinaram a entender estas idéias, que busco aplicar à música como um todo, independentemente de gênero ou época.

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25/1/2008 - Iniciando o "Gotterdammerung"

Em três dias eu terei encerrado minha primeira apreciação completa do "Ringen".

O prólogo do "Gotterdammerung" com as Parcas é uma das coisas mais tristes e opressivas que eu já vi em qualquer sentido - cenica e musicalmente. Eu acho que, para um cristão, um paralelo interessante seria a angústia de Jesus no Monte das Oliveiras, sofrendo por saber de sua aniquilação mas sem nada poder fazer a respeito - "seja feita a vossa vontade". O que me remete imediatamente a Bach e suas Paixões, especialmente a segundo João, que foi quem abriu as portas para o mundo da música lírica para mim. Mas isto é uma outra história.

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20/1/2008 - Brunhilde, Wotan, Richard Wagner...

Após hesitar durante muito tempo, receoso da gigantesca tarefa que se me afigurava "O Anel dos Nibelungos", resolvi que, nessas férias, me aproximaria deste gigantesco quadro romântico.

 

Não terminei ainda de assistir a tetralogia (Levine, Met, 1990). Acabei de assistir "A Valquíria" há menos de 5 minutos. Muitas idéias tumultuam meu cérebro. Minha esposa está dormindo, não resistindo desta vez ao esforço brutal que esta obra requer de nós para ser plenamente experimentada.

A abertura d' "Ouro do Reno", a elegia de Loge ao amor pelas mulheres, o diálogo enamorado entre Siegmund e Sieglinde, a alegria desta quando descobre estar grávida de seu irmão-amante, o lamento de Brunhilde após seu exílio do plano dos deuses...... Difícil falar. Mas o terrível conflito de Wotan é o que mais me marcou até agora. Seu dueto final com Brunhilde é lindo demais para ser conspurcado com minhas palavras suburbanas.

 O que dizer sobre Wagner, meu Deus? Como alguém pode produzir coisas tão belas? É mais do que aceitável, é necessário que Wagner tenha sido antisemita e "protonazista", para ser rude; sem estas marcas tão falhas e grotescas em seu ser, o indivíduo que compôs música tão bela não poderia ser considerado um homem como nós, devendo ser seguido e adorado como uma divindade, um avatar magnífico portador da única boa-nova que importa, que é a da Beleza.

 

Post sujeito à revisão, inclusive gramatical. Vou dormir e sonhar sonhos terríveis.

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10/1/2008 - O Feio e a Bela

As pessoas feias têm a obrigação moral de procurar se destacar em alguma área, para que sua feiúra fique em segundo plano: ser rico, bom atleta, engraçado, inteligente, culto, etc. Já as pessoas belas, não: sua única obrigação é permanecer sendo belas, encantando o mundo com sua presença.

Para um feio como eu, a chance de encontrar uma companhia verdadeira (além do sexo) depende inteiramente da personalidade e/ou de dinheiro. Como sou duro, investi na personalidade. Não deu muito certo - sou um sujeito de inteligência e cultura medíocres, e com um humor instável. Meu único diferencial positivo é a inquietação ativa que tenho com a minha mediocridade.

Por azares do destino, amei profundamente uma mulher (na verdade, duas, mas a outra é passado) que soube encontrar algo em mim que a encantasse. Pura sorte. Eu amo e sou amado (na medida em que se pode saber que se é amado), o que é raríssimo. Conheço algumas pessoas - na verdade, poucas - que amam, mas não são amadas, ou que são amadas, mas não amam. As duas coisas simultaneamente, nunca encontrei in loco.

Pois bem: conheço uma Bela. Sua maior dor: não ser amada. Isto é uma fatalidade que feqüentemente ocorre com as belas. Como são belas, não sentem necessidade de desenvolver nenhum plus e, portanto, são amadas sexualmente - o que é um amor, claro. Sua companhia per se, afora o sexo, não é valorizada. A educação machista que nós recebemos sobre as mulheres não as ajuda muito: devemos comê-las, não amá-las. Quando encontramos uma que valha um pouco mais além da indispensável beleza, casamos e continuamos comendo as demais.

Mas a beleza da Bela em questão está no seu jeito de ser. Ela é bonitinha - não mais que isso. Pele ok, belos cabelos,  uma bunda que é satisfatória, mas poderia ser um pouquinho maior, bons seios. O seu jeito de ser alegre e debochado a torna mais bonita do que de fato é. No entanto, seu jeito despachado é frequentemente visto como um convite para um encontro sexual casual. Mas ela quer mais do que isso, e sofre ao perceber que nós só queremos comê-la.

Não sou moralista. Foder é bom demais, e viva o sexo casual. Mas eu estou falando de um encontro entre pessoas que contenha o foder, mas que o ultrapasse. E isto ela não têm.

Quem é mais infeliz, os feios ordinários que a duras penas saciam seus desejos, quando saciam, ou a Bela que sacia alguns deles à vontade - mas só alguns? A Bela em questão sofre de incompreensão. Sua real beleza não é notada. O triste é que com o passar do tempo ela mesma pode vir a esquecer desta beleza suprema que se esconde dentro dela.

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8/1/2008 - "Vem amor bate não pára..."

Tive um excelente final de ano. Fugi de minha família depressiva e me refugiei (junto com alguns milhares de pessoas inconvenientes, mas que não me incomodaram tanto por não me conhecer) na Região dos Lagos. E o ano de 2008 se apresentou para mim, orgulhoso admirador de Bach, Wagner e Pink Floyd, através do funk. E que funk.

A letra gira em torno destes versos, cantados por sussurrante voz feminina: "vem amor, bate, não pára, com o piru na minha cara...". Em seguida, um MC qualquer se dedica a declamar suas intenções para com a moçoila. Baixo nível? O que a arte tem que ver com a moralidade? NADA.

Pouco antes de viajar, travei contato com um grupo feminino de funk gentilmente alcunhado de Gaiola das Popozudas. As quatro integrantes fazem jus ao adjetivo, em especial a cantora, chamada simplesmente Valeska dos Santos. Pois a Valeska se revela uma tremenda putona, rameira convicta e ferina: "agora eu sou piranha e ninguém vai me segurar". Em outra canção, Valeska explica porque é melhor ser amante do que a "fiel" (a oficial, a esposa, a patroa, etc.): ela só tem o melhor de seu homem, e ainda pode chifrá-lo o quanto quiser, já que ele também tem uma outra companhia amorosa.

Valeska não mede as palavras, dizendo claramente qual é sua visão dos relacionamentos amorosos:  

"Fiel é o caralho,

Você vai tomar no cu,

É o bonde das amantes

Caçadoras de piru".

 

O melhor de tudo é que Valeska apresenta seu hedonismo com uma expressão facial que, na falta de termo melhor, eu chamo de "cara de puta", sem nenhum sentido pejorativo. Eu sempre fui atraído por mulheres com cara de puta.

Em tempos da impossibilidade de amar, Valeska segue na seara de Tati, apresentando um hedonismo total como a opção mais consequente para os dias de hoje. Concordo plenamente com ela. Pena que meu coração ainda viva no século XIX.

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26/12/2007 - Almoço

Ana-Maria e pão-de-queijo com Fanta. Sobremesa: Napolitano.
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25/12/2007 - Uma história impressionante - a morte de Jacques Levy

Estou ficando velho e mais insensível para algumas coisas (formalidades, p. ex.), mas ainda me toco com outras que, em tese, deveriam causar pouca ou nenhuma impressão. A música ainda me faz sofrer e me sentir nos píncaros da glória, como quando eu tinha 15 anos e voltava da escola para ouvir "The Gates of Delirium" religiosamente, todo santo dia.

Eu adoro Roger McGuinn. Por mais que os Byrds tenham tido ao longo de sua história outras figuras carismáticas e brilhantes, como Crosby e Gene Clark, é McGuinn, sua voz frágil e a Rickenbacker que me cativaram desde o primeiro momento. Outro dia, assistindo a uma apresentação de 72 dos Byrds no Beat Club, fui procurar saber que fim tinha levado Jacques Levy, o indivíduo que compôs junto com Roger grande parte das melhores canções dos Byrds na sua reta final ("Chesnut Mare" é o melhor exemplo). Descobri que ele tinha falecido, e que sua despedida foi algo impressionante: inconsciente no hospital e com aparelhos prestes a serem destaivados, ele recebeu a visita de McGuinn, que cantou ao seu ouvido. Levy despertou e esboçou breves sinais de felicidade ao ouvir suas canções entoadas pelo velho amigo para, momentos após, morrer.

 

Esta história me deixou arrepiado. Aqui na "imanência" há coisas belas e estranhas o suficiente para nos encantarmos.

 

Link: http://rogermcguinn.blogspot.com/2005_09_01_archive.html

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25/12/2007 - É possível amar no mundo de hoje?

Vivemos para consumir. A lógica do consumo permeia todas as nossas relações, inclusive as amorosas. Se o consumir é um ato que nunca se basta a si mesmo, precisando sempre de um objeto "a" qualquer que o impulsione adiante, bens duráveis não são bem vindos. O mesmo vale para as relações amorosas. Importante é exibirmos, junto de nossos carros, celulares e digitais up-to-date, nossos parceiros amorosos do momento. No entanto, o vínculo com estes deve ser fágil o bastante para que, à primeira desavença ou carne-nova-no-pedaço, possamos deixá-lo de lado e consumirmos um outro ser sem grande culpa.

Alguém está disposto a questionar suas verdades em nome de um relacionamento amoroso? Prestem atenção: eu não falo de casos e "ficantes". Vejo pessoas que verdadeiramente se gostam e não se sentem motivadas a mergulhar dentro de si mesmas e umas nas outras para se auto-avaliarem e crescer em conjunto, tal a pressão feita sobre elas para a descartabilidade das relações amorosas. Neste sentido, amar é uma aventura radical e solitária nos dias atuais. Pobre de quem ama.

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13/6/2007 - Desmedida adolescente

A adolescência é uma merda. Superar os traumas da adolescência e deixar de lado muitos dos seus impulsos é tido como crucial no processo de "amadurecimento". Há uma coisa, no entanto, que acredito só os adolescentes possuem: a energia destemperada e desesperada devotada aos seus objetos de desejo, quaisquer que eles sejam. Lutei para me desvencilhar da maioria de minhas neuroses adolescentes, inclusive desta última, mas creio que só consegue se relacionar com a Grande Arte e com Pessoas (aquelas que nos movem de verdade) quem ainda mantém esta vitalidade dionisíaca exacerbada. Só os adolescentes amam; a diferença é que seu amor é apaixonado e hormonal, tendo duração curta. Mas para amar mesmo, qualquer coisa, só mergulhando e indo ao fundo como um adolescente, se lixando para as consequências.

Obviamente, isto não faz o menor sentido na sociedade do minuto e da descartabilidade de tudo e todos em que me encontro. Daí o ensimesmamento.

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13/6/2007 - Superficialidade

Acho que nunca acreditei em Deus. Não me lembro, quando criança ou no início da adolescência, de ter alguma vez sentido a tão propalada "fe" em alguma entidade. Isto me livrou de muitos problemas, mas por outro lado provocou outros.

Sempre fui um grande falador que, não obstante, era fechado em si mesmo e tímido. Muitas das crises existenciais que passei não tiveram interlocutor algum, seja pela já alegada timidez ou pela incapacidade dos que me cercavam de entendê-las. Isto acabou me tornando um sujeito "profundo", no sentido de ensimesmado e doentiamente investigativo de mim mesmo. As alegrias da vida "superficial" (ninguém é "profundo" se é feliz com as coisas mais simples e frugais) ou me eram ignoradas, ou sempre deixavam um certo sabor de "quero mais" impossível de ser satisfeito. Este certamente foi o fator mais visceral que me tornou um espírito doente - alguém interessado na Filosofia. E toda esta caminhada me levou a uma inusitada confusão: felizes são os ignorantes, os superficiais, os que vivem de "aparência", os que têm uma fé cega em algo. Quisera eu poder voltar atrás e ser a velha mendiga de Voltaire...

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13/6/2007 - Teógnis e o Belo

Acabei de ler as Elegias, de Teógnis. Apesar do tradutor sinalizar como sendo de outro autor a invocação às Musas, ela é muito bela para deixar passar adiante:

"Musas e Graças, filhas de Zeus, que foram no passado

às bodas de Cadmo,vós cantastes estas palavras:

'O Belo é o Bom, e o que não é Belo, não pode ser Bom'.

Eis as palavras que saíram de vossos lábios imortais".

 

Esta é minha única verdade na atualidade. Que ela seja a pedra inicial deste blog.

 

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Pensamentos esparsos sobre a Arte e sua relação com meu cotidiano rico em sentimentos fora de moda.

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